26.9.10
a dúvida matadora
26.1.10
Me inventando
Eu, crua, não me agrado.
26.2.08
A half Elis
Elis subsistia. Chegava em casa cansada do dia, ligava o rádio para sentir-se menos sozinha, olhava melancólica para o balançar das árvores e isso a fazia lembrar que ela vivia. O telefone tocava e, como sempre, ela ignorava. Pegava um livro na mão, lia duas páginas e desistia dele. Ligava o computador, entrava em um ou dois sites e depois enjoava. Via programas de tv (não até o final, claro). E essa sensação de “pela metade” imperava em sua vida. Era uma sensação triste, que ela sabia que tinha como reverter mas sabia também que não contribuía muito para isso. Talvez fosse a sua sina. Ela não se sentia merecedora de fazer parte do todo. É como se ela ameaçasse o equilíbrio das coisas. Ela não fazia parte do mesmo mundo do vento que balançava as árvores, dos artistas de tevê e das pessoas à sua volta. Talvez pertencesse mais ao mundo dos personagens dos livros: são mágicos, belos, intensos; mas não pulam pra fora de suas páginas. Lá estão presos pelos seu criador, à mercê de sua vontade. Elis era presa pelos olhos bitoladores dela mesma, escrava de seus próprios parágrafos. Assim ela era, cruel com ela mesma e com os outros. Tinha medo de compartilhar a melodia de seus versos.
3.12.07
Foi com considerável interesse que observou a chegada da nova colega de trabalho. Parênteses: ele se chamava Juca, trabalhava para uma agência Publicitária em um amplo escritório tomado de mesas, computadores e,presume-se, de pessoas. A moça entrou discretamente. Ele concluiu: era daquelas que entram nas vidas dos homens de forma discreta, só para devastá-las, e depois saem de fininho. O passo era brando, delicado, mas decidido; cabelos lustrosos, cheios de vida e movimento (de um louro acinzentado tão bonito que chegava a incomodar os olhos de uma maneira tal...não sabia se era tal um cisco ou tal um colírio); nos lábios, um batom exageradamente vermelho, mas não o suficiente para ofuscar o brilho dos olhos, tão azuis quanto... o céu (não conseguiu pensar em comparação menos clichê). Foi descendo o olhar... o blazer bem costurado,combinado com o decote sutil, dava à moça um ar de mulher séria e provocante ao mesmo tempo. Ah, sim, a mulher era, sem dúvida, deslumbrante, mas nada que ainda não tivesse provado parecido. Era bonita o bastante para dormir com ele, pensou, mas não impressionante o bastante para intimidá-lo. Continuou seu trabalho no computador. Os murmurinhos à sua volta dificultavam sua concentração. Por que raios a chegada de uma nova colega de trabalho causara tantos comentários? Ou uma estagiária,que fosse. Deu uma risadinha debochada ao imaginar que os colegas – tão inexperientes... – deviam estar despindo a nova colega de trabalho com a mente,sonhando em um dia tê-la...
19.9.07
A mocinha
Lábios inchados de pudor que se mordiscavam, carnívoros; a inocência da menina que era como muralha, atravancando os esforços do menino que tanto sonhara com o momento sublime da conjugação carnal primeira. Com a turgidez repentina, a fúria de um animal que partia para cima da presa. Pudica, acanhada, ah, mas quanto medo sentia a criaturinha, frente àquele desavergonhado!; nem sequer o conhecia. De súbito: qual tua graça?, indagava ela, resignada, malsucedida na tentativa de travar prosa naquela hora tão inoportuna. O álcool dilatara as têmporas do menino, agora a mostrar-se sonolento. O sorriso angustiado de quem se despede para sempre, - tenho que ir -,e o menino despeitado, furioso por tudo aquilo que poderia se ter concretizado, muito embora fora tão efêmero..."
Primeira parte de um texto que eu escrevi em um tempo em que estava muito apaixonada e que lia muita Clarice Lispector. Haha. Na verdade é meio que a descrição exagerada do primeiro dia que beijei meu atual namorado. Isso faz...uns 4 anos? =)